Ideologia Gerencialista e Subjetividade do Trabalhador no Terceiro Setor

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Defendi, no dia 7 dezembro, minha dissertação de mestrado em administração, cujo título se lê acima. Foi um trabalho intenso, que começou em 2004 com a insistência de meu amigo Fred Pabst. Dizia ele que minhas idéias sobre gestão deveriam ser desenvolvidas no âmbito de um programa acadêmico que lhes desse mais lastro científico. Resisti muito, pois sou pouco afeito aos salamaleques da academia e sempre gostei de caminhar com minhas próprias pernas. Mas, tendo vivido na pele a dificuldade de argumentar com os “de cima” com base no empirismo, acabei dando razão ao amigo e procurando o PPGA/UnB em meados de 2009.

Ocorre que há muito vinha sentindo um cheirinho azedo no terceiro setor, onde, cada vez mais, se vê a lógica do determinismo econômico suplantar a da missão. Cansei de ver gente sendo fustigada por produtividade, ameaçada com  supostas listas de futuras demisões e subtraída do sagrado direito democrático de expressão. Cada vez que ia tentar discutir o assunto com os colegas ou chefes, criava-se um clima horrível, como seu tivesse xingado a mãe dessas pessoas, cuspido no prato em que comia e mordido a mão que alimentava. Ao insistir, logo vinham as ameaças veladas, quando não explícitas, e a acusação de que tudo não passava de “achismos” de minha parte, de teorias conspiratórias criadas na minha débil mente. O jeito seria, então estudar o tema e mostrar que, ao contrário disso, eu falava de um fenômeno real, cujas origens podem ser traçadas em uma estrutura de causas e efeitos há muito explicada por alguns dos grandes pensadores do nosso tempo.

Não vou gastar o tempo dos leitores com o processo, mas posso garantir que aprendi muito e tive a alegria de debater minhas hipóteses e achados com gente do mais alto nível. Agora não discuto mais os abusos gerencialistas no terceiro setor com base em achismos. Fundamento minhas afirmações em qualquer conversa com a segurança dada por mais de 20 anos de carreira, 8 páginas de referências bibliográficas e um estudo de caso baseado em 12 horas de entrevistas com 4 organizações situadas em três regiões do país.

Gostaria muito que um grande número de pessoas lesse meu trabalho e, portanto, publico, logo abaixo,  o link para a dissertação e o resumo do estudo.

Dissertação em PDF, com aproximadamente 1,1 MB

Resumo

O terceiro setor, formado por organizações privadas de interesse público, cresce em tamanho e relevância no Brasil. Há uma ligação histórica dessas organizações com a benemerência, o humanismo e a luta por direitos. Entretanto, o crescimento dessa população organizacional tem gerado competição por recursos, com a consequente busca por sistemas e modelos gerenciais que possam viabilizar a sobrevivência de cada organização via vantagens comparativas associadas à eficácia, eficiência, efetividade e posicionamento de marca.

Neste contexto, nota-se uma crescente adoção de modelos importados do segundo setor – privado de interesse privado. Entre os elementos importados, destacam-se modelos de gestão movidos pela ideologia gerencialista, orientada por uma racionalidade finalística e marcada por processos de hipercompetição, aceleração, quantofrenia e precarização das condições de trabalho. Também se investe no culto à excelência e na mobilização psíquica do sujeito como formas de se manipular a pessoa como recurso estratégico da organização. Tal ideologia conflita com a racionalidade substantiva, baseada em valores e ética, geralmente ligada à fundação e à manutenção de organizações do terceiro setor.

Desenvolveu-se pesquisa qualitativa, baseada em entrevistas com profissionais de quatro organizações da área ambiental, sendo duas cosmopolitas e duas periféricas. Buscou-se, por meio da análise de conteúdo e do discurso, a percepção dessas pessoas sobre o fenômeno em questão. Os resultados mostram que a ideologia gerencialista foi, pelo menos nos casos estudados, assimilada pelo trabalhador; que as relações de trabalho estão se precarizando em nome da rentabilidade financeira dos investimentos na organização; que as estratégias de defesa e adesão implicam sofrimento subjetivo e que há distanciamento crescente do terceiro setor de sua identidade histórica de esfera de agenciamento marcada por uma racionalidade substantiva.

Palavras-chave: Reestruturação no terceiro setor. Ideologia gerencialista. Conflitos de racionalidade e subjetividade              


 

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