Radicalização política e a busca por consistência entre discurso e prática

diatoms

Vive-se uma radicalização da política, e a resposta transgressora ou limítrofe (não há univocidade quanto a isso) de Moro é condizente com a cartada do PT ao colocar Lula como ministro e presidente de facto. É triste que tenhamos chegado a este ponto, mas perfeitamente compreensível.

Vivemos por séculos em um contexto de tácita amoralidade na política. Em anos recentes, muito pela martelação discursiva da esquerda, a sociedade resolveu levar ideias de justiça e democracia a campo. A Lavajato é um sintoma dessa mudança substantiva no comportamento político do brasileiro. Mas, paradoxalmente, a coalizão governante, liderada por gente que sempre julgou os demais por esse sistema discursivo moralizante, manobra de todas as formas para inviabilizar a materialização dessa justiça, o que vem criando um campo de diálogo completamente anômico e confuso.

É lógico que deve haver limites – as leis, por exemplo – para a ação dos juízes, mas não se pode negar o componente de jogo da vida pública. Como pode o PT querer atenuar a ação política (estrita, não partidária) do judiciário ao mesmo tempo em que a leva ao paroxismo em tudo que faz? Obviamente, isso não será aceito pelos demais atores. Acho pouco provável que o juiz precise de informação e admoestação, como sugerem alguns. Ele sabe os riscos que corre, e não age sozinho. Sua atuação tem sido atrelada a aprovações subsequentes de um STF predominantemente nomeado – e sistematicamente pressionado – pelo PT.

Quanto à moralidade da política, o caso é mais complicado. Por haver um entendimento histórico e amplo de que a política – como o mundo negocial – seria amoral, ela se converteu, na prática, em um campo quase que absolutamente imoral. O que se faz não precisaria ter relação com o que se pratica. Seriam duas instâncias diferentes, não conectadas. Daí o país patafísico que vimos na campanha presidencial de 2014.

Contudo, estamos vivendo um processo de mudança no imaginário popular quanto à aceitação da distância entre discurso e prática. Ocorre que, nos últimos anos, parece haver crescido na sociedade o desejo de se buscar a aproximação entre valores e comportamento, o que gera conflito com o pragmatismo finalístico-calculativo da política partidária, ele sendo a principal função sustentadora da pretensa amoralidade dos discursos, e gerador das imoralidades que vemos na prática. Se algo é ilegal no corpo normativo da sociedade, passa a ser ilegal também na política. Os sujeitos querem consistência na articulação entre a vida prescrita e a vida real.

Falamos do tipo de obviedade que, por sua obscenidade, tem nos confundido e corroído pelo sempre. A diminuição desse lapso entre os âmbitos prescrito e real na política me parece fundamental como função civilizatória, razão pela qual, ainda que não possa discutir tecnicamente a legalidade da ação de Moro, posso entender perfeitamente os motivos da aceitação de seu comportamento pela sociedade. Mesmo do ponto de vista da psicanálise do vínculo coletivo essa ação faz sentido. Ele se posiciona como uma figura paterna que vem interromper o comportamento gozoso de quem não recebeu, em momento e âmbito certo, a devida castração.

Agora, resta-nos lidar com a liquidação, por meios constitucionais, de um velho e insuficiente sistema político. Ele não mais responde às demandas da vida cotidiana. Só é complexo quando isso não nos interessa, e não possui mecanismos que impeçam a deturpação da democracia por ela mesma. Isso não será fácil. Não será mesmo.

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