Mais registros audiovisuais do que acontece nas artes, por favor

Gustavo, Fabio e Luís se organizando para realização da segunda edição do Prêmio.

Gustavo, Fabio e Luís se organizando para realização da segunda edição do Prêmio.

Ainda que não a cultive, guardo uma mágoa com relação ao modo como a cidade trata seus artistas. Esta é a capital do país, e há um parque audiovisual imenso se pensarmos nas televisões públicas, governamentais e privadas. Contudo, o que tivemos, em décadas recentes, de produtos e processos sistemáticos de documentação e disseminação do que se faz, salvo algumas iniciativas na TV Senado e Câmara? Quase nada.

Falo um pouco sobre o mundo da música, que conheço bem. Em mais de 30 anos de carreira, e tendo sido parte de algumas das mais bem sucedidas bandas da cidade, tenho somente um registro decente de meu trabalho, feito com meu próprio equipamento, pelo filho que treinei pessoalmente. Com poucas exceções, o resto – e são dezenas de registros – são produtos incompletos ou capengas em termos da qualidade, seja do vídeo ou do áudio. Para que tenham ideia do que falo, lembro-me de ter uma longa discussão com um técnico sobre a necessidade ou não de se gravar o material em estéreo. Imaginem, já nos anos 2000, ter que debater isso!

Enfim, coisas maravilhosas estão acontecendo na cidade, e não é somente no campo da música. Porém, a não ser que alguém consiga ser reconhecido no exterior, nada ou quase nada restará – e se restar não estará encontrável – nos arquivos da cidade, de modo que gerações futuras possam saber o acúmulo histórico das artes. Esta é a cidade em que se hospedou o choro. Temos Reco do Bandolim, Hamilton, a família Ernest Dias, Rosa Passos, Isabella Paz, Natiruts, Haroldo Mattos, Moises Alves,Eladio Antonio Oduber Palencia… Nem saberia precisar uma grandeza para o manancial de produção musical. No teatro, temos toda a prolífica produção de Alexandre Ribondi, o Cena Contemporânea e produções de bolso em farta quantidade. Nas artes plásticas, Zéllo Visconti (que já se picou para João Pessoa), Darlan Rosa, Ricardo Stumm, Elisabete Ferrarezi, e tantos outros com muito que mostrar e dizer. Sim, porque essas pessoas têm também uma visão de mundo, nem sempre claramente exposta em sua obra.

Tenho tentando documentar algumas dessas trajetórias, mas minha contribuição ao fim da vida terá sido ridiculamente pequena. Onde está a televisão pública, com todo aquele equipamento e estúdios ociosos? Perdida no campo das lutas ideológicas? Onde estão as televisões privadas? Rádios de todo tipo, que poderiam, como a BBC ou a Radio Bremen, contribuir para a gestão do conhecimento no campo das artes, simplesmente registrando e transmitindo o que se faz. Basta pesquisar por “Later With Jools Holland” ou “Musikladen” para entender o que digo.

Tudo isso, escrevo porque, ontem, meu amigo Gustavo Ribeiro de Vasconcellos disse que a TV Cultura de São Paulo enviará uma equipe do programa Metrópoles para cobrir o Prêmio Profissionais da Música 2016, que está em sua segunda edição. Perguntei a ele como estava o interesse da imprensa local, pois achei a cobertura incoerente com a estatura do encontro ocorrido no ano passado, e fiquei espantado ao saber que, até agora, nada além do protocolar havia sido acertado com a mídia local.

Por outro lado, fico feliz. Vejo que temos na cidade mais um encontro cosmopolita. Se não fosse, não teríamos o interesse da TV Cultura. Com todos os problemas, ela é o que de melhor tivemos em termos de mídia pública no país.

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