Exposição de Ligia de Medeiros mostra vigor da tradição modernista no design brasiliense

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Na sexta-feira passada, revivi um antigo prazer ao visitar a exposição Caminho do Desejo, de Lígia Medeiros, na Arte & Ofício (CLS 104, Bloco A loja 27, das 10 às 19h00). Faço uma pequena introdução para explicar o motivo.

Em 1990, tive meu primeiro emprego como jornalista profissional, e atuei como repórter cultural no Caderno Dois, do Correio Braziliense. Os artistas plásticos tinham fama de chatos, de modo que, não raramente, ouvia alguém cochichar: “ih, lá vem fulano de novo. Manda o Salimon (o foca…) falar com ele”. E lá ia o Mário, resignadamente, encarar o que se entendia como xepa da pauta cultural. Entretanto, foi assim que vivi os momentos mais felizes da carreira de repórter, tendo conhecido pessoas interessantíssimas e aprendido muito sobre algo que me interessava desde pequeno. Assim, eram frequentes as idas aos vernissages, exposições e, não raramente, ateliers ou mesmo residências dessas criaturas interessantíssimas que são artistas plásticos.

Isso durou cerca de um ano, porque acabei sendo demitido por insubordinação, mas as marcas ficaram, tanto que decidi dar vazão a minha própria verve de artista, que aflora, ainda que meteoricamente, para exorcizar meus demônios simbólicos. Também permaneceu o interesse pelos artistas, que se expressa, principalmente, em meus filmes, e se alimenta de idas ocasionais a exposições aqui em Brasília e em outras paragens por mim visitadas.

Foi numa dessas excursões que, depois de duas ou três oportunidades perdidas, conheci pessoalmente Ligia de Medeiros, uma artista extraordinária que parte da azulejaria para experimentos gráficos em outras plataformas de uso cotidiano, tais como sacolas, tecido, papel e louça. À chegada, logo nos encontramos, e foi um prazer conhecer pessoalmente aquela amiga com quem já trocava ideias pelo Facebook desde 2013. Os dois paramos subitamente e, depois de um breve processo mental de reconhecimento (Mário? Ligia?), demos um abraço e comemoramos brevemente o feito. Afinal, não deixa de ser uma loucura você viver na mesma cidade e demorar três anos para confraternizar pessoalmente com alguém que você conhece virtualmente!

Quem se der o gosto de visitar a exposição – e se for aos sábados será, muito provavelmente, recepcionada pela própria artista – verá uma variedade de formas, cores e materiais, cujo uso decorre de longa e cuidadosa imersão, por mais de trinta anos, no trabalho de vanguardas históricas. A diversidade nas formas de expressão, contudo, não desemboca em incoerência. “Reajo a todas elas com a mesma herança do rescaldo modernista”, diz Ligia. “ Sempre extraio suco desse resto. Uso ferramentas que me representam bem: traição da lógica, da percepção, da ótica, efeito tridimensional, não distinção entre figura e fundo, uso de ícones da cultura brasileira. Tudo para extrair do observador a menção de um sorriso”.

Fui acompanhado da esposa Tina – ela própria artista plástica – de modo que foi muito fácil comentar, elucubrar e filosofar sobre a exposição. São 35 obras expostas e, logo de cara, notávamos o arranjo cuidadoso das peças conforme paletas de cor. Fixei-me em um conjunto em que verde e azul predominavam, evocando, no meu caso, as artes gráficas das revistas de surfe e skate que comprava e devorava detalhadamente nos anos 70 e começo dos 80. A sinuosidade e a harmonia causadas pela repetição de certas formas são elementos bastante presentes na obra de Ligia. A azulejaria moderna, ainda mais que a tradicional, demanda o domínio da reiteração e da aliteração, de modo que, talvez por meu interesse de décadas pela música eletrônica, logo me identifiquei com as composições, seja pela manutenção de um padrão ou – esta sempre geradora de questionamentos – a quebra dele.

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Também nos interessou o uso que a artista faz da metalinguagem, pois vemos que a azulejaria, démarche da obra de Ligia, é retomada como motivo em gravuras emolduradas, nas quais, seguidas vezes, a figura humana surge como elemento secundário, suas vestes se fundindo com o padrão da meta-cerâmica ou do meta-tecido. Esse caminho de ida e volta, de polinização cruzada entre os suportes, é visto pela autora como ação transgressora. “A expressão ‘caminho do desejo’, que nomeia a exposição diz da vontade de se ir por uma trilha que não é autorizada. Associo-a a meu percurso sensível, pois se, em princípio, a minha trajetória parecia ter sido traçada ao acaso, – tantas foram as afeições e os desvios -, hoje vejo que há encaixe e pertinência”.

A pegada modernista é, de fato, evidente na obra de Ligia, de sorte que a associação iconográfica com Brasília e o legado de Athos Bulcão, portanto, ocorre quase que automaticamente. É por isso que, ao adentrar o espaço da galeria e se deparar com uma enorme peça em tecido gravado com motivos geométricos, um brasiliense ligado à tradição gráfica da cidade será tomado por um sentimento de pertença, e também da sensação de que certas aspirações fundantes do design brasiliense seguem muito vivas e vibrantes. Por isso, recomendo muito a visita à exposição que, pelo menos por hora, não tem data de encerramento.

8 Respostas a Exposição de Ligia de Medeiros mostra vigor da tradição modernista no design brasiliense

  1. Sonia Saraiva says:

    De um jeito aparentemente suave e tranquilo – na verdade vigoroso e mesmo obsessivo- essa artista talentosa lê e relê Brasília e seus símbolos. Quem vive aqui se reconhece em seus trabalhos e se diverte com a ironia sutil expressa em materiais diversos. É um prazer conviver com minha amiga-artista e trilharmos juntas os caminhos do desejo!

  2. Andrés Rodríguez Ibarra says:

    Massa, Mário! Belo texto! Queriater ido, não deu, mas vou, com a Mariza.

  3. GOSTEI MUITISSIMO DAS SUAS OBSERVACOES SOBRE O TRABALHO DA LIGIA. Meu nome e Nilo e sou o proprietario da Arte oficio, onde ocorre a exposicao. Gostaria de anexa-lo no meu main-list (nao sei se se escreve assim)) Parabens pela sua cronica. Saber ver e um dom.

    • admin says:

      Obrigado, Nilo. Parabéns por acolher o trabalho da lígia. Meu email é mariosalimon (arroba) mariosalimon.com. Mantenhamos contato. Abraço.

  4. Ulisses says:

    Mario, excelente texto, excelente pessoa voce é. Fui visitar e achei demais… pra mim é facil pois fica ao lado do meu trabalho.

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